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Curiosidades - Fatos & fotos

Pálido ponto azul

Dia de São Valentim, 14 de fevereiro de 1990. A pedido de Carl Sagan, os técnicos da Voyager 1 fazem a sonda “olhar para trás” e fotografar o planeta de onde partiu. E a mais de 6 bilhões de quilômetros de casa ela revela apenas um pálido ponto azul (Pale Blue Dot, em inglês), numa icônica foto que agora está completando 30 anos.

Pálido ponto azul
O pontinho azul sobre o facho de luz é a Terra vista da órbita de Saturno. Esta versão atualizada utiliza técnicas modernas de processamento de imagem para revisitar a famosa foto. Clique na imagem para saber mais.

Trata-se de uma imagem singela, nada especial, mas que pode nos fazer refletir profundamente sobre o nosso lugar no Cosmos ─ e o lugar do Cosmos em nós. Astronomia no Zênite não teria como celebrar melhor este aniversário senão relembrando o próprio texto que Sagan escreveu sobre essa fotografia.

Mais adiante compartilhamos também o vídeo original e a narração em português feita pelo talentoso dublador Guilherme Briggs ─ para quem preferir apenas escutar. E se emocionar.

A espaçonave estava bem longe. Eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazer ela dar uma ultima olhada em direção de casa.

De Saturno, a Terra pareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado, valeria a pena ter tal fotografia.

Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da Antiguidade Clássica, que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto Cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui, estava nossa primeira chance, e talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então, aqui está – um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do Sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de Sol. Como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos.

Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidencia. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todo ser humano que já existiu, todos de quem você já ouviu falar, viveram suas vidas.

A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada criança esperançosa, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica.

Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam.

Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginária auto importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica.

Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhum indicio que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nós mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até hoje que alberga a vida.

Não há outro, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, sim, assentar-se, ainda não. Gostando ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.

Tem se falado da Astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas, do que essa distante imagem do nosso miúdo mundo. Para mim, acentua a nossa responsabilidade para nos portarmos mais amavelmente uns com os outros, e para protegermos e acarinharmos o pálido ponto azul. O único lar que nós conhecemos.

Em vídeo

ÁUDIO ORIGINAL  Narrado por Carl Sagan e legendado em Português.
NARRADO EM PORTUGUÊS pelo dublador Guilherme Briggs.

Bastidores

A Voyager 1 foi lançada em setembro de 1977. A espaçonave robótica de 733 kg teve como missão estudar os planetas do Sistema Solar exterior e, mais tarde, o espaço interestelar. Somente após o encontro com Saturno, na década de 1980, a missão principal foi declarada concluída. Foi quando a foto do “pálido ponto azul” pode ser obtida.

Os dados ficaram inicialmente armazenados na espaçonave, sendo transmitidos para a Terra (e também para as sondas Magalhães e Galileo) entre março e maio de 1990. Na verdade, a Voyager 1 enviou 60 fotogramas, cujos sinais viajaram à velocidade da luz durante quase cinco horas e meia até chegar à Terra. Apenas 3 deles mostravam a Terra.

Os cálculos de cada tempo de exposição foram feitos por cientistas do JPL, o Laboratório de Propulsão a Jato da Universidade do Arizona, nos EUA. As três fotos que mostravam a Terra foram tiradas usando combinações de filtros azul, verde e violeta, com exposições 0.72, 0.48 e 0.72 segundos.

A faixa de luz sobre a qual a Terra parece repousar é resultado da difração causada pela luz solar, devido à relativa proximidade entre o Sol e a Terra, vistos à distância de Saturno. A cor do nosso planeta é resultado da polarização eletromagnética e da difração da luz refletida.

Uma outra câmera da Voyager, de ângulo aberto, obteve uma fotografia mostrando o Sol e a região do espaço contendo a Terra e Vênus, usando um filtro mais escuro e a exposição mais curta possível (5 milissegundos) para evitar a saturação devido a intensa luz do Sol, mesmo àquela distância. Duas fotos de ângulos mais fechados foram então inseridas na de ângulo aberto. Assim mesmo o resultado é uma imagem ofuscada, onde o Sol aparece muito maior que a dimensão que teria visto de Saturno (abaixo).


DE MUITO LONGE  O Sol, Vênus e a Terra na imagem da Voyager 1 que combina as fotos de ângulo fechado e aberto. Créditos: NASA/JPL. Clique na foto para ampliar.

A Voyager 1 continua seu caminho sem volta, viajando pelo espaço interestelar a 17 mil km/h em relação ao Sol, sendo o engenho humano que foi mais longe (mais de 22 bilhões de km), e o primeiro a deixar o Sistema Solar. Operando por mais de quarenta e dois anos, ela continua recebendo comandos rotineiros da estação de controle e transmitindo dados para casa.  Fim

 

Carl Sagan
Voyager Mission Status 

Referências (fontes consultadas)
• A Pale Blue Dot. The Planetary Society. 2019?. Disponível em: <https://www.planetary.org/explore/space-topics/earth/pale-blue-dot.html>. Acesso em: 13 fev. 2020.
• Pálido Ponto Azul. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2020. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Pálido_Ponto_Azul>. Acesso em: 13 fev. 2020.
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