Sol, Lua e carnaval

Ano passado, o sábado de carnaval caiu no dia 14 de fevereiro. Este ano a data é 6 de fevereiro. Todo ano ela muda. E se você prestar atenção, também muda a data da Páscoa, da sexta-feira santa, do dia de Corpus Christi… Mas é claro que o carnaval não é uma festa cristã. Na verdade, ela é anterior ao Cristianismo e seus primeiros relatos vêm de Roma, na Antiguidade.

Saturnália, de Antoine-Francois Callet
SATURNÁLIA  Pintura de Antoine-Francois Callet.

Os romanos organizavam festivais para quase tudo e pelo menos dois deles podem ter relação com o carnaval moderno. Naquela época, o ano estava dividido em dez meses – começando em março, com a primavera.

Fevereiro era fim-de-ano, quando acontecia a Februália, em honra a Februs, deus associado à morte e purificação. Mas a Februália não era tempo de regozijo. Orações e oferendas pediam para que a chegada da primavera – e o novo ano – trouxesse boa colheita.

Antes havia a Saturnália, em honra ao deus Saturno da mitologia grega. Um período em que as pessoas não trabalhavam, trocavam presentes e até os escravos eram temporariamente tratados como iguais.

A Saturnália acontecia perto do solstício de inverno do hemisfério norte, quando se rogava aos deuses por um inverno brando, até que o sol retornasse ressuscitado na primavera. Durante esse festival, que durava vários dias, as pessoas se divertiam usando máscaras enquanto empurravam e seguiam um carro em forma de navio em meio à multidão.

A Quaresma designa um período de 40 dias que antecedem a principal festa do Cristianismo: a ressurreição de Cristo, celebrada no famoso Domingo de Páscoa desde o século IV. A Quaresma começa na quarta-feira de cinzas e vai até a quinta-feira santa, que celebra a última ceia de Cristo com os doze apóstolos.

Páscoa e ressurreição
Como de costume, essas celebrações foram incorporadas pela Igreja Católica (veja quadro “Fusões e Aquisições”), e a palavra carnaval, segundo a maioria dos historiadores, se liga à expressão carne levare, “afastar a carne” – um último grito de alegria antes dos sentimentos pesarosos da Quaresma.

A ressurreição de Cristo teria acontecido próximo do equinócio da primavera (quando dia e noite têm a mesma duração) e durante uma lua cheia. Por isso a data da Páscoa deveria ser calculada com base nesses dois fenômenos.

Em 325 EC, o Concílio de Nicéia estabeleceu regras bastante rígidas para a determinação da Páscoa: ela é celebrada primeiro domingo após a lua cheia que vier depois de 21 de março, início da primavera no hemisfério norte – e isto substituiria os ritos pagãos de fertilidade.

Mas essa regra baseava-se na suposição de que o equinócio da primavera boreal acontecia sempre no dia 21 de março. Naquela época o calendário utilizado era o Juliano, instituído pelo Imperador Júlio César, que embutia vários erros. Com o passar dos séculos, o equinócio da primavera se afastou do dia 21 de março, fazendo a Páscoa se deslocar pouco a pouco para o verão.

FUSÕES E AQUISIÇÕES

Se não pode vencer o inimigo, absorva-o. Foi assim que o Cristianismo, não podendo combater os festejos pagãos da Antiguidade que ainda prevaleciam em plena Idade Média, resolveu adaptá-los ao calendário cristão.

Embora a Saturnália, com seu liberalismo, também tenha influenciado o carnaval, a época em que se realizava – e, entre outros, o hábito de dar presentes – se converteu na celebração do Natal, quando os presentes passaram a lembrar o menino Jesus que recebeu oferendas dos Reis Magos ao nascer. Durante a Saturnália as pessoas se banqueteavam, e a mesa farta também foi incorporada à festa cristã.

Outro festival pagão muito popular era o que acontecia durante o solstício de verão boreal, em junho. Na Antiguidade, acendiam-se fogueiras em honra ao deus Sol, costume que mais tarde foi associado à fogueira que Isabel acendera para avisar Maria sobre o nascimento de São João Batista. Foi quando a festa do deus Sol se transformou nas populares festas juninas (que no hemisfério sul acontecem no início do inverno).

 

Papa Gregório XIII

O PAPA Gregório XIII foi responsável pela introdução do calendário que usamos. Gravura de Lavinia Fontana.

Mudando o calendário
NO ANO DE 1582 O PAPA GREGÓRIO XIII, aconselhado pelos melhores astrônomos da época, decidiu fazer uma reforma no calendário. A partir de então, a Páscoa passou a ser determinada com base no movimento médio de uma lua fictícia e não do verdadeiro satélite.

O novo calendário gregoriano permite que essa lua cheia média venha a cair num dia diferente da lua cheia verdadeira. Em 2001, por exemplo, a lua cheia caiu no domingo 8 de abril e a lua cheia pascoal (ou eclesiástica) no dia 15, o domingo de Páscoa.

A nova regra estabelece que a Páscoa caia sempre no 1° domingo após a lua cheia eclesiástica (13 dias após a lua nova eclesiástica), que ocorre após (ou no) equinócio da primavera eclesiástica (21 de março).

Isso faz com que a Páscoa nunca venha a ocorrer antes do dia 22 de março ou depois do dia 25 de abril. Período que nem sempre coincide com aquele que seria obtido se a definição seguisse critérios astronômicos.

 

 

A pergunta certa
PORTANTO, PARA SABER A DATA DO CARNAVAL devemos nos perguntar quando se comemora a Páscoa daquele ano. Ao subtrair 47 dias, caímos na terça-feira de carnaval. Mais 60 dias e teremos o Corpus Christi. Apesar de se restringir a um certo período (ela jamais acontece em fevereiro ou maio, por exemplo) a sequência das datas da Páscoa só se repete em ciclos de aproximadamente 5.700.000 anos!

 

Páscoa israelita
O PESSACH É A PÁSCOA JUDIA, em memória da passagem do povo de Israel pelo mar Vermelho, liberto da servidão no Egito. Esta celebração acontece na primeira lua cheia da primavera. No ano de 2001, por exemplo, a primavera boreal foi no dia 20 de março, e a lua cheia que se seguiu foi em 8 de abril, quando se comemorou a Páscoa Israelita.

O calendário islâmico
A ERA ISLÂMICA, OU HÉGIRA, começou no dia 16 de julho do ano 622 do calendário Juliano, dia da emigração de Meca para Medina. O calendário islâmico é exclusivamente lunar e os meses transladam por todas as estações do ano num período de 33 anos lunares (ou 32 anos solares, aproximadamente). O ano 2000 da Era Cristã corresponde ao ano de 1420/1421 da era islâmica.  Fim

 

Os anos bissextos
O jogo do deus Sol

» Referências (fontes consultadas):
• Mourão, R.R.F. A Astronomia e o Poder Religioso. Rio de Janeiro, Edições Ediouro, 1987.
• Boczko, R. Conceitos de Astronomia. São Paulo, Edgard Blücher, 1984.
• Simaan, A.; Fontaine, J. A Imagem do Mundo. Dos Babilônios a Newton. São Paulo, Cia. das Letras, 2003.

» Publicação em mídia impressa:
• Costa, J. R. V. Sol, Lua e carnaval. Tribuna de Santos, Santos, 11 fev. 2002. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. 4.

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