O sacrifício da Apollo 1

Os astronautas subiram na cápsula com cerca de duas horas de atraso, por volta do meio-dia, devido a problemas nos controles. Pouco tempo depois, Grissom sentiu um cheiro estranho em seu equipamento de oxigênio.

Varias verificações foram feitas e nenhum problema foi encontrado. Irregularidades nas comunicações causaram mais uma interrupção na contagem regressiva.

Horas mais tarde, às 18:30, tudo parecia dentro do esperado. Temperatura e pressão normais. Um minuto depois, Grissom, via rádio, comunicou que havia fogo na cabine.

Os instrumentos na sala de controle confirmaram um rápido aumento da temperatura no interior da cápsula. Nesse momento, gritos eram claramente ouvidos pelo rádio: ─ Esta pegando fogo na cabine! Tem fogo por aqui. Tirem-nos daqui! Estamos queimando!

Os astronautas tentaram sair do módulo, mas não conseguiram. A escotilha possuía apenas trancas mecânicas, cujos esforços na tentativa de abri-la mostraram-se inúteis.

Apollo 1

Cápsula após o incêndio. Design sofreu mais de mil alterações. Foto: NASA.

A pressão dentro da cabine chegou aos 2 kg/cm2, o que levou a estrutura a ceder. Os técnicos e o serviço de emergência levaram longos 5 minutos para intervir e, quando finalmente abriram, os três astronautas estavam mortos.

Ainda que a roupa espacial os tenha protegido do fogo, a inalação excessiva de fumaça havia sido fatal.

White jazia em sua cadeira com os braços sobre a cabeça, talvez tentando chegar à escotilha. Grissom parecia estar com o braço esticado e Chaffee estava afundado em sua cadeira. Tudo durou de 15 a 30 segundos desde o momento em que o incêndio foi detectado.

Comissão Apollo 204
LOGO DEPOIS DO ACIDENTE FOI CRIADA UMA COMISSÃO de investigação, chamada “Comissão de revisão Apollo 204”. Eles ouviram cerca de 1.500 especialistas em incêndios e explosivos, projetos de veículos espaciais, química, eletrônica e medicina.

Todas as testemunhas foram interrogadas, a cabine foi desmontada em busca de vestígios e todos os registros foram examinados.

Foram 17 semanas de trabalho intenso e um relatório de 3 mil páginas analisando o acidente e criticando severamente todos os que estavam envolvidos no projeto. Muitas deficiências citadas na execução, fabricação dos instrumentos e controle de qualidade.

Possivelmente, o incêndio começou embaixo da cadeira de Grissom devido a um cabo elétrico defeituoso. O fio ficava próximo a uma porta de dejetos, que ao ser aberta e fechada pode ter desgastado os cabos, já que o seu isolante não estava protegido.

Apollo 1

Detalhe dos danos na Apollo 1 depois que os corpos foram retirados. Foto: NASA.

Sem proteção o cabo poderia ter produzido as primeiras faíscas. Daí o fogo propagou-se rapidamente tanto por causa da atmosfera rica em oxigênio, quanto pela quantidade e materiais inflamáveis.

A comissão constatou que uma rede de náilon foi o primeiro elemento a pegar fogo. Essa rede foi colocada embaixo dos acentos dos astronautas para evitar que coisas caíssem no chão durante os testes. Em condições normais de voo ela não estaria ali.

Fibras de náilon fundido salpicaram no interior da cabine e incendiaram outros materiais. Com a presença de oxigênio puro na atmosfera os materiais não resistiram muito. Uma nuvem de fumaça e fuligem entrou no aparelho respiratório dos astronautas, matando-os por asfixia. As queimaduras não foram fatais.

Vários fatores contribuíram para a tragédia:

  • Muitos materiais inflamáveis que exalavam gases tóxicos quando queimados;
  • Cabine fechada pelo lado de fora;
  • Tubos sem proteção transportando líquidos inflamáveis;
  • Saída de emergência inadequada;
  • Cabos elétricos desprotegidos e mal instalados;
  • Equipe médica e bombeiros não estavam em serviço durante o teste;
  • Atmosfera 100% oxigenada na cápsula alimentava rapidamente o fogo.

Toda programação do projeto Apollo foi atrasada em 21 meses. Durante esse período, os engenheiros da NASA modificaram completamente a cabine do módulo de comando. Cerca de 1300 alterações foram feitas.

A atmosfera de oxigênio foi substituída por uma mistura de ar; rede elétrica e condutores foram redirecionados e protegidos; a escotilha foi completamente modificada e novas roupas foram feitas com material a prova de fogo.

Tripulação da Apollo 1
TRIPULAÇÃO da Apollo 1. Da esquerda para direita, Edward White, Virgil Grissom e Roger Chaffee. Foto: NASA.

Perdas e ganhos
NÃO FORAM SOMENTE OS NORTE-AMERICANOS quem sofreram grandes perdas em seus programas espaciais em 1967, os soviéticos também perderam um veterano, Vladimir Komarov, no voo da tão festejada Soyuz 1. Ele foi a primeira vítima humana durante um voo espacial.

Essas mortes tornaram os projetos espaciais mais seguros e fizeram com que as agências espaciais se tornassem mais prudentes em seus programas. Graças à coragem e determinação de homens como eles, a espécie humana conseguiu atingir grandes objetivos na exploração espacial.  Fim

Colaborou Rui C. Barbosa, do Boletim Em Órbita.

 

Missão Soyuz 1
Laika e os cosmonautas

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