O mundo de Blade Runner

2019. A colonização de outros mundos é uma realidade. Milhares de pessoas já partiram na esperança de uma vida melhor. Superpopulação, poluição ambiental e escassez de recursos naturais tomaram o planeta Terra um ecossistema falido.

Na cidade de Los Angeles, Estados Unidos, arranha-céus de 400 andares impõem-se numa paisagem sórdida e lúgubre, constantemente molhada por chuva ácida. A Engenharia Genética transformou-se numa poderosa indústria e comércio, capaz de criar em laboratório desde animais de estimação até cópias de seres humanos, chamados replicantes, projetados para substituir o homem em tarefas perigosas ou simplesmente para lhe servir como escravos.

Blade Runner
A LOS ANGELES em 2019, segundo uma das mais brilhantes obras de ficção do século XX. Imagem: Allstar/Warner Bros/Sportsphoto Ltd.

Este é o cenário de Blade Runner, um dos mais fascinantes filmes de ficção já produzidos. Longe de ser somente uma aventura, a jornada do policial Deckard na caça de um grupo de replicantes foragidos vai ao encontro de questões profundas sobre nossa existência, como de onde viemos, quem somos e quanto tempo vamos viver.

Ficção ou denúncia?
O AMBIENTE FUTURISTA NO QUAL A NARRATIVA deste brilhante filme se desenrola não é tão surreal quanto parece. Los Angeles, hoje, é a cidade mais poluída dos Estados Unidos e toda região do sul da Califórnia projeta um crescimento populacional que pode culminar em 29 milhões de habitantes já no ano 2025.

Los Angeles
A LOS ANGELES de hoje é a cidade mais poluída dos Estados Unidos.

Como nos dias atuais, o mundo de Blade Runner também conta com uma publicidade influente, que vende a esperança de resgatar em mundos distantes as oportunidades que um dia existiram na Terra. Efeito estufa, chuva ácida, enormes quantidades de lixo, redução da camada de ozônio e da diversidade biológica são problemas ambientais do nosso tempo.

Os replicantes de Blade Runner, cuja presença na Terra é proibida, foram projetados geneticamente pela poderosa Tyrell Corporation para superar o homem em força e inteligência; contudo vivem por apenas quatro anos. São capazes de suportar a dor e ignoram o medo, por isso são vendidos como soldados ou objetos de prazer.

Sean Young
A BELA RACHEL (Sean Young), uma das replicantes da trama de Blade Runner. Foto: Allstar & Warner Bros.

Ativados na forma adulta, os replicantes não tem um passado. Tantas diferenças com respeito a um ser humano comum os fazem à semelhança de uma máquina, sendo tratados como tal. Um policial Blade Runner pode matá-los; e isso não configura um assassinato. Chama-se apenas remoção.

Desde 1978 vários tipos de animais vem sendo clonados, embora as cópias fossem sempre obtidas a partir de embriões. Em fevereiro de 1997 o escocês Ian Wilmut produziu um clone de uma ovelha a partir de um óvulo não fecundado, usando material genético de uma célula comum. O cientista pôs fim a uma “lei sagrada” da biologia, segundo a qual uma célula qualquer de um organismo superior não pode gerar um novo ser.

Durante o filme, percebe-se que não é uma tarefa simples distinguir um replicante. Sem as experiências tão comuns à vida humana, eles desenvolveram uma personalidade fleumática. Tomou-se usual o chamado teste Voight-Kampf, baseado na análise das variações no tamanho da pupila a de uma série de perguntas visando provocar uma resposta emocional.

Com o objetivo de aperfeiçoar ainda mais sua criação, a Tyrell chega a gerar uma replicante com implantes de memória: “mais humano” é o lema da companhia. E o que se vê são seres com a mais pura essência humana, infelizes em sua condição, mas desejosos pela vida, enquanto o policial Deckard desumaniza-se na sua caçada.

Blade Runner
ÚLTIMAS PALAVRAS  Deckard (Harrison Ford) confronta Roy (Rutger Hauer), o último replicante fugitivo. Foto: Allstar & Warner Bros.

O inesquecível final de Blade Runner é também uma lição a ser amadurecida por todos nós. Após uma implacável perseguição, Deckard se vê a mercê de seu último inimigo que, resignado, reconhece o seu destino e lastima a condição humana, escrava do medo e de seus próprios demónios. Teremos de evoluir nosso modo de pensar ou capitularemos ao egoísmo e à estupidez; e daí lamentaremos um destino muito mais sombrio que o denunciado neste brilhante filme.  Fim


O DIRETOR
Blade Runner foi lançado nos cinemas em 1982. Dirigido por Ridley Scott, a produção teve uma trajetória difícil. Com o orçamento estourado, o diretor foi substituído e o filme concluído com um final diferente do previsto no roteiro original. Mesmo assim, acabou se transformando num Cult Movie, sendo considerada uma das produções mais importantes do gênero ficção científica em todos os tempos.

A PRODUÇÃO
O filme foi baseado no conto de Phlip K. Dick “Do Androids Dream of Eletric Sheep?” com produção de Michael Deeley. Os efeitos especiais ficaram com Douglas Trumbull, de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Jornada nas Estrelas. Junto com o desenhista industrial Syd Mead, eles criaram o cenário futurista de Los Angeles, incluindo as pirâmides da Tyrell Corporation e o edifício do Depto. de Polícia.

A MÚSICA
Um capítulo a parte do filme, a envolvente trilha musical composta pelo grego Vangelis dá força a narrativa, preenchendo-a com beleza e melancolia. Simplesmente soberba.

O ELENCO
Harrison Ford é Deckard, um ex-tira em decadência, cuja narração em off acentua ainda mais o estilo noir do filme, que homenageia produções policiais das décadas de 1930 e 1940.
Rutger Hauer é Roy Batty, o líder dos replicantes foragidos. Extremamente forte e inteligente, foi ativado em 8 de janeiro de 2016 sendo destinado a missões de combate.
Daryl Hannah é Pris, a namorada de Batty, um modelo de prazer ativado em 14 de fevereiro de 2016.
Joanna Cassidy é Zhora, ativada em 12 de junho de 2016, sua função é atuar em homicídios políticos.
Brion James é Leon, um replicante usado como soldado, ativado em 10 de abril de 2017 e que tenta se infiltrar na Tyrell Corporation.
Sea Young é Rachel, uma replicante experimental sem prazo final estabelecido, que se apaixona pelo policial Deckard.
Edward James Olmos é Gaff, o misterioso membro da polícia que deixava origamis por onde passava.
Joe Turkel é o poderoso Tyrell, o gênio criador dos replicantes.
Willian Sanderson é J. F. Sebastian, um designer genético amigo de Tyrell, que sofria de uma doença rara que o identificava com os replicantes.

Blade Runner
 Imagem: Allstar & Warner Bros.
 
 

Não entre em pânico
No limite da realidade

» Referências:
• COSTA, J.R.V. Blade Runner: ficção ou denúncia. mai 1997. 4f. Trabalho (Disciplina SAP-126 Humanidades e Ciências Sociais) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Paulo. 1997.

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