O brilho de da Vinci

Existe algo de misterioso no luar. Um fenômeno que acontece perto da Lua Nova. Uma claridade tênue, porém marcante, impossível de ignorar, mas que em princípio não poderia existir, pois ilumina uma parte da Lua que não está exposta ao Sol e, portanto, deveria estar no escuro, invisível ─ como acontece com parte da Lua em fase.

Esse brilho dura poucas noites e desaparece sem deixar vestígios, o que o torna ainda mais misterioso. Afinal, de onde ele veio? O que estava iluminado a Lua naquelas noites?

Mesmo sem saber a resposta, aquela luz fantasmagórica já perturbava a mente das pessoas desde a Antiguidade. E recebeu vários nomes, como luz cinzenta, luz cinérea (do termo usado em Biologia para a matéria cinzenta do tecido nervoso), brilho pálido (do inglês ashen glow) e até denominações mais populares, como “a velha lua nos braços da nova lua”.

Luz cinérea

FANTASMA Foi Leonardo da Vinci quem propôs, em 1510, a primeira explicação satisfatória sobre a misteriosa luz cinzenta da Lua.

Luz cinérea
PARA A ASTRONOMIA ─ NO IDIOMA PORTUGUÊS, ela ficou conhecida como luz cinérea. Mas é o termo em inglês que entrega sua verdadeira origem: earthshine (brilho da Terra) ou planetshine (brilho do planeta). E quem decifrou a charada pela primeira vez, segundo registros históricos, foi um conhecido artista italiano de múltiplas habilidades: Leonardo da Vinci.

A luz cinérea acontece poucos dias antes e depois da Lua Nova, quando a maior parte do hemisfério noturno da Lua está voltado para nós. Como a Terra reflete muito mais luz do Sol que a Lua, nosso planeta acaba iluminando seu satélite por reflexão. E embora essa luz seja muito mais fraca que a solar, a porção escura da Lua acaba se tornando visível por contraste.

Luz cinérea
BATE E VOLTA  O Sol ilumina a Terra, que reflete parte dessa luz. A luz refletida atinge a Lua, iluminando levemente sua face escura, mas parte dela é enviada de volta, e nós enxergamos uma luz cinzenta. Gravura: ESO e L. Calçada (clique na imagem para ampliar).

A luz cinérea faz três percursos até chegar aos nossos olhos. Primeiro, ela sai do Sol e vem iluminar a Terra; depois é refletida pela Terra e vai iluminar a face noturna da Lua. Em seguida parte da Lua novamente em direção ao nosso mundo, chegando até você, que está observando o satélite.

Esse fenômeno não é exclusivo da Lua. Ele já foi observado em satélites de outros planetas do Sistema Solar, como Jápeto, de Saturno (visto nessa condição pela nave Cassini).

Como observar
A LUZ CINÉREA É MAIS EVIDENTE de 1 a 4 dias antes e depois de uma Lua Nova. O melhor momento para observar é logo após o ocaso (nos dias seguintes à Lua Nova) ou pouco antes da aurora (se for observar antes da Lua Nova). Consulte antes as datas das fases da Lua.

Utilidade
ALÉM DISSO, A LUZ CINÉREA PODE VARIAR de intensidade, um importante indicador da quantidade de nuvens que envolverem a Terra (quanto mais nuvens, maior a luz refletida para a Lua e de volta para nós).

Por isso existe uma relação entre ela e as condições meteorológicas terrestres. Seu estudo tem implicações nas questões ligadas ao aquecimento do planeta.

A luz cinérea ainda carrega as propriedades da radiação refletida pela própria Terra. Assim, é como se pudéssemos olhar o nosso mundo com se ele fosse um exoplaneta. E como essa radiação é altamente polarizada, pode ser usada para examinar a presença de vida. Se obtivermos precisão nessa análise, também estaremos mais aptos a decidir sobre os exoplanetas melhores candidatos a abrigar vida.  Fim

 

Fases da Lua
Exoplanetas

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