Nascer e ocaso

O nascer do sol é uma das maiores certezas da vida. Ansiamos por estar aqui amanhã para viver mais um dia, mas ainda que não estejamos, estamos certos de que o Sol vai se erguer novamente sobre o horizonte, iluminar os caminhos e depois se pôr, permitindo as estrelas se exibirem mais uma vez, num ciclo que existe desde que o mundo é mundo.

E desde que o nosso planeta começou a girar sobre si mesmo, todos os lugares da Terra ficam alternadamente à luz e à sombra. As durações de cada período, porém, nem sempre se mantiveram as mesmas.

Dias e noites
HÁ BILHÕES DE ANOS a Lua pairava ameaçadoramente próxima da Terra. Nessa época distante um mês lunar durava cerca de 20 dias, e um dia por aqui não demorava mais que 18 horas (se existissem homens de negócios naquela época, certamente eles diriam: “se ao menos eu tivesse um dia de 24 horas…”).

Mas a Lua está pouco a pouco ficando mais longe desde que se desprendeu das entranhas da própria Terra. Isso foi quando o nosso mundo, ainda quente e mole como um bolo no forno, viu-se atingido meio de raspão por um corpo com quase o mesmo tamanho de Marte.

O nascimento da Lua pode ter durado somente dois ou três dias, mas foi um péssimo final de semana para se estar na Terra (gravura abaixo).

Nascimento da Lua
PARTO DOLOROSO  Há cerca de 4,5 bilhões de anos um astro do tamanho de Marte chocou-se com a Terra, soprando detritos rochosos que foram capturados em órbita e se fundiram na jovem Lua. Descobertas recentes reforçam essa hipótese.
Imagem: Black Cat Studios.

De lá para cá o “cabo de guerra” entre as forças gravitacionais da Terra e da Lua vêm freando a rotação do nosso mundo e tornando os dias mais longos. Mas como para cada ação existe uma reação, à medida que isso acontece a Lua se afasta de nós.

Vivemos numa época em que há um sincronismo entre o movimento da Lua sobre seu próprio eixo e o período orbital do satélite em torno da Terra. Isso significa que vemos sempre o mesmo lado da Lua – e quem estiver por lá assiste ao nascer do Sol uma vez a cada duas semanas.

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Onde é noite e onde é dia
A IMAGEM ABAIXO, GERADA SINTETICAMENTE, mostra a aparência do planeta Terra neste momento, como visto de um ponto no espaço a cerca de 36 mil quilômetros sobre o continente sul-americano. Assim, é possível ver as regiões iluminadas pelo Sol (onde é dia), as regiões à sombra (onde é noite) e a região de transição (chamada terminador) que assinala onde o dia está começando ou terminando. Este recurso é uma cortesia do Fourmilab, de John Walker, na Suíça.

Além da imagem padrão (América do Sul), você pode alterar o seu ponto de observação para um ponto no espaço acima da América do Norte, Europa, Ásia, polo Sul ou polo Norte (clique nos nomes). Pode ser necessário aguardar um pouco para as imagens carregarem pela primeira vez. As nuvens foram retiradas artificialmente. Os pontos brilhantes são as luzes das grandes cidades.

Crepúsculos a auroras
NA TERRA, O ESPETÁCULO DIÁRIO do nascer e do pôr do Sol encanta os entusiastas da natureza, mas é usualmente ignorado pela maioria dos apressados humanos. Para nós, o alvorecer de um novo dia começa no instante em que o limbo superior do astro-rei cruza o horizonte do observador. Porém, mesmo que estejamos ao nível do mar, a aurora terá começado horas antes, num jogo de luzes e sombras que se alternam pelo céu até o despontar do Sol.

Um jogo inverso acontece no crepúsculo vespertino, ou ocaso, quando o Sol se esconde para dar lugar as estrelas. Chamamos de crepúsculo civil quando o centro do Sol está 6º abaixo do horizonte. Nesse momento o horizonte ainda está bem definido, mas já podemos ver as estrelas mais brilhantes.

Existe também o crepúsculo náutico, quando o centro do Sol fica 6º mais baixo que no crepúsculo civil. Bem mais sutil, ele assinala o instante em que a linha do horizonte começa a tornar-se indistinta do mar escuro, ou quando ela começa a aparecer, no caso do crepúsculo náutico matutino.

Nascer do Sol do espaço

FIO DE LUZ O nascer do Sol visto do ônibus espacial Columbia em órbita, numa missão no final de 1983.

Por fim há o crepúsculo astronômico, quando o centro do sol está 18º abaixo do horizonte (três vezes mais baixo que o crepúsculo civil e uma vez e meia o crepúsculo náutico).

O crepúsculo astronômico marca o início (ou o fim) da noite verdadeira, a escuridão total. Mas essas situações raramente se aproximam do modelo idealizado se as observações forem feitas em terra firme, com elevações e obstáculos no horizonte.

Um último consolo aos insatisfeitos com suas horas diárias: se nossos descendentes puderem sobreviver ao inchaço do Sol, daqui a cinco bilhões de anos, eles contarão 960 horas entre o nascer e o pôr do Sol.

Naquelas noites sem fim, metade do mundo enxergará apenas uma Lua diminuta no céu, por períodos que hoje seriam dias. Será quando os crepúsculos deixarão de ser banais, como muitos de nós creem hoje.  Fim

 

Meu céu
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» Publicação em mídia impressa:
• Costa, J. R. V. O Sol de cada dia. Tribuna de Santos, Santos, 11 abr. 2005. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-3.

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