Lua de sangue

Aquela era a quarta viagem de Cristóvão Colombo. Ela começou com a saída em Cádiz, no dia 11 de maio de 1502, e o famoso navegador estava em companhia do seu filho Fernando e de Bartolomé de Las Casas.

Timelapse de um eclipse total da Lua.
Crédito: MentalLapse.

Quase dois anos mais tarde, na Jamaica, os indígenas se recusaram a reabastecer o navio, comprometendo a jornada. Em maior número que a tripulação, entrar num conflito armado seria suicídio. Colombo, então, articulou um estratagema de outro mundo.

Ele já havia folheado as efemérides e sabia que dali a três dias aconteceria um eclipse total da Lua. Ardilosamente, mandou reunir os nativos e os ameaçou, dizendo que seu deus, que habitava o céu, iria fazer a Lua desaparecer se eles não fornecessem os suprimentos de que precisavam.

A maioria não acreditou, é claro. E até mesmo zombaram da audácia do homem branco. Mas na noite de 29 de fevereiro de 1504, no porto de Santa Glória, quase no meio da ilha da Jamaica, a Lua Cheia foi vista se erguer no horizonte e, pouco a pouco, desvanecer.

Colombo
COLOMBO intimida os nativos na Jamaica. Gravura: Biblioteca Pública de Nova Iorque.

Os índios gritavam em socorro. Mas, para total desespero deles, Colombo apenas retirou-se para sua cabine e nada falou. Lá, secretamente usou sua ampulheta para medir a passagem do tempo e, quando percebeu que o eclipse atigira seu máximo e logo começaria a regredir, Colombo retornou triunfante.

POR QUE SANGUE?

Para Richard Friedman “o sangue é o maior símbolo da vida. Ao usá-lo em rituais, os fiéis reforçam seu vínculo com a divindade e se purificam”. Ele ainda acrecenta: ”Na interpretação cristã posterior, o próprio Jesus é considerado o sacrifício final, que limpa os pecados da humanidade de forma definitiva, o que dispensa a morte de animais.”

Deus estava disposto a perdoa-los, disse ele, e curar a Lua de sua inflamação, pois todos já haviam presenciado a sua cólera. Os indígenas logo se puseram a reabastecer o navio, felizes e obedientes.

A “inflamação da Lua”, a qual Colombo se referiu segundo o relato de Fernando na biografia de seu pai, era uma clara referência ao vermelho sangue que muitas vezes a Lua se tinge no auge dos eclipses totais.

A cor é resultado da dispersão da luz do Sol, que passa rasante pela atmosfera da Terra e termina por alcançar a Lua, que de outro modo permaneceria enegrecida até o eclipse terminar.

Diferentes encarnados
É CLARO QUE NEM TODOS os eclipses totais da Lua se enrubescem da mesma meneira. Sabendo disso, o astrônomo francês André Danjon (1890-1967) criou uma escala arbitraria que atribui um coeficiente de brilho relativo para cada aspecto que a Lua apresenta na totalidade. A “Escala de Danjon” é mostrada a seguir.

ESCALA DE DANJON
 
Muito escuro
A Lua é quase invisível. Sua cor na totalidade é cinza ou castanho.
Escuro
Os detalhes do relevo são de difícil observação.
Vermelho-escuro
Observa-se uma mancha escura no centro da sombra e a zona exterior é clara.
Vermelho-tijolo
Sombra limitada por uma zona cinza ou amarela clara.
Alaranjado
Muito claro, com zona exterior luminosa e às vezes azulada.

Estudando mais de 150 eclipses da Lua detalhadamente, Danjon concluiu que havia uma correlação entre a luminosidade da Lua eclipsada e a atividade solar. Na sequência de um mínimo solar, por exemplo, a Lua fica mais escura na totalidade. Mas se o eclipse acontece próximo de um máximo solar, então a vermelhidão do satélite aumenta.

Naturalmente, tal entedimento não estava disponível na época da descoberta da América pelos europeus. Nem para os navegadores, nem tampouco para os nativos.

Mas repare como o conhecimento é transformador. Sem ele, fenômenos naturais como eclipses, chuvas de meteoros e mesmo eventos climáticos inusitados são frequentemente atribuídos ao sobrenatural – e com isso facilmente utilizados para manipular e até escravizar populações inteiras.

É precisamente quando os identificamos como naturais – e procuramos compreende-los melhor – que nos tornamos realmente livres.  Fim

Lua de Sangue Nem sempre os eclipses lunares

A Lua pode se tingir de vermelho também por outros motivos que não um eclipse total. A foto ao lado, por exemplo, foi obtida 5 noites depois da Lua Cheia de junho de 2015.

O fotógrafo Aaron Seefeld não usou qualquer filtro quando apontou para a Lua no estado norte-americano de Minnesota. O efeito foi produzido pela fumaça de incêndios florestais no Canadá, que fizeram a Lua nem sequer aparecer quando ainda estava perto do horizonte. Quando surgiu, estava nesse tom vermelho profundo, e à medida que subia ficava alaranjada.

Erupções vulcânicas também podem deixar a Lua com uma coloração incomum. Dependendo do que esteja em suspensão na atmosfera, você poderá ver a Lua roxa, marrom ou quem sabe uma Lua Azul “de verdade”…

 

Próximos eclipses
Eclipses lunares

» Referências (fontes consultadas):
• Peterson, I. The Eclipse That Saved Columbus. In: ScienceNews. Disponível em <https://www.sciencenews.org/article/eclipse-saved-columbus>. Acesso em 2 jun 2015.
• Mourão, R. R. F. Eclipses: da superstição à previsão matemática. São Leopoldo: Unisinos Ed., 1993. p. 35-37, 60-61.

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