Identidade espacial

O ser humano é uma espécie que adora dar nomes. Gostamos de classificar coisas. De agrupá-las em conjuntos. De nomenclaturas. Entendemos que sem nome perdemos parte de nossa própria identidade.

Veja o caso dos planetas, por exemplo. Eles levam nomes das principais divindades gregas, como Júpiter e Saturno. Já os asteroides e cometas costumam ficar com os nomes de quem os descobriu; o astrônomo brasileiro Ronaldo Mourão é um deles.

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Damos nomes a cada uma das crateras lunares. Elas homenageiam as pessoas que contribuíram para o progresso da humanidade, como Santos Dumont. Já em Vênus, decidimos que os nomes dados aos diferentes aspectos do relevo seriam exclusivamente femininos.

Citação

Cosmonautas, astronautas…
E COMO CHAMAMOS OS HOMENS E MULHERES que viajam ao espaço? Astronautas? Na verdade a primeira designação surgiu com o russo Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935), um autodidata que dedicava o tempo livre à dedução das teorias que mostraram porque os foguetes de múltiplos estágios e os combustíveis líquidos eram mais eficientes para as viagens espaciais.

Foi ele quem cunhou a expressão cosmonáutica para designar os que vão ao espaço, os “navegadores do cosmos”. Naturalmente o termo foi adotado pela ex-União Soviética para denominar o cidadão (de qualquer nacionalidade) que vai ao espaço por meio deles.

Os norte-americanos preferiram chamar os seus de astronautas, “navegadores dos astros”, termo que surgiu na França nos anos 30, com a publicação da obra L’Astronautique, de Robert Esnault-Pelterie, principal contribuição francesa ao estudo do voo espacial na época.

Os termos astronáutica e astronauta se popularizam no Ocidente a partir daí. Contudo, chamar de astronauta um francês que viajava numa cápsula soviética não ficava bem. Por isso os cidadãos da terra de Júlio Verne chamaram seu compatriota Jean-Loup Chrétien (que foi ao espaço numa Soyuz T-6, em 1982) de espaçonauta. Mas esse termo simplesmente “não pegou”.

Yuri Gagarin, Alan Shepard e Yang Liwei
Da esquerda para a direita, Yuri Gagarin, Alan Shepard e Yang Liwei.

…E taikonautas
EM PORTUGUÊS, AS PALAVRAS ASTRONAUTA E COSMONAUTA continuam sendo as únicas utilizadas para se referir aos que vão ao espaço, respectivamente, por intermédio dos Estados Unidos e da Rússia (antiga União Soviética). Acontece, porém, que essas não são mais as únicas nações que podem colocar alguém em órbita sem pedir ajuda a ninguém.

Desde outubro de 2003 a China entrou para o time. O primeiro viajante espacial chinês foi Yang Liwei, nome que já entrou para a história ao lado de Yuri Gagarin (russo, primeiro ser humano em órbita da Terra, em 12 de abril de 1961) e John Glenn (primeiro norte-americano, 1962). Mas adivinha só: os chineses também criaram uma denominação própria.

A palavra yuhangyuan deriva de uma das três palavras chinesas para astronauta. Mas é um termo muito difícil de falar no Ocidente. Talvez por isso a publicação Aerospace China passou a usar uma denominação bem mais simpática para designar seus viajantes espaciais: “taikonauta”, termo derivado da palavra chinesa taikong, que significa espaço ou cosmos.

No final de março de 2006 o brasileiro Marcus Pontes, então Tenente Coronel da Força Aérea, vou a bordo de uma nave russa Soyuz para uma estada de 8 dias na Estação Espacial Internacional. A rigor, nosso pioneiro foi um cosmonauta e não um astronauta, apesar dele também ter recebido treinamento em Houston, nos EUA.

Mas e se, um dia, num futuro ainda distante, estivermos no mesmo time das nações capazes de enviar seres humanos para a órbita da Terra? Como deveríamos chamar os viajantes espaciais do Brasil?  Fim

Colaborou Rui C. Barbosa, do Boletim Em Órbita.

 

» Publicação em mídia impressa:
• Costa, J. R. V. Identidade espacial. Tribuna de Santos, Santos, 12 dez. 2005. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-2.

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