NOS LUGARES QUE CONSTRUÍMOS para viver ao longo de todos esses anos de existência na Terra, às vezes quase não há espaço para o ambiente natural.

Nas cidades, verdadeiros templos da existência humana, nos acostumamos a ver calçadas em vez de terra, enormes edifícios em vez de árvores, lâmpadas elétricas em vez de estrelas e automóveis em vez de animais.

É claro que as cidades também são o lar de muitos de animais, mas há uma espécie que se destaca. Os seres humanos são sempre milhares, não raras vezes milhões, espremidos entre desfiladeiros de concreto, movendo-se de um lado para o outro apressados, dia e noite.

Cidade
  Imagem: Wikipedia Commons.


Olhando para tudo o que construímos, nós, humanos, temos impressão que o mundo em que vivemos de fato nos pertence.

Contudo, a ocupação humana se detém numa pequena parte da superfície terrestre. Uma camada sólida, porém mais fina que a casca de uma maçã quando comparada à própria fruta.

Apenas alguns quilômetros abaixo ou acima desta superfície não há mais seres humanos. Nem mesmo aviões se aventuram muito além da camada de ar mais próxima do chão. Exceto pelos sinais das telecomunicações e por alguns raros veículos espaciais, não há mais influência humana ao redor. O Universo nos desconhece.








A PARTIR DE AGORA, imagine que você é um explorador espacial vindo de muito longe. Não sabe nada sobre a Terra ou sobre seus habitantes. Para eles você seria considerado um alienígena. Você está viajando pelo Universo em uma nave espacial, possui extraordinária tecnologia e conhece alguns “truques” que lhe permitem encurtar distâncias no espaço sem que para isso seja necessário viajar mais rápido que a luz.

Imagine que você faz parte de uma grande “Confederação de Planetas”, envolvendo espécies de várias partes da galáxia. Sua missão é investigar novos mundos para contatar civilizações inteligentes e expandir a Federação. Ainda que usando a sua imaginação, lembre-se de que sua jornada estará firmemente apoiada em conhecimentos científicos reais.

No interior de sua nave espacial, um banco de dados com expedições anteriores mostra que você já visitou muitos sistemas planetários antes. Alguns cujas estrelas nasceram no lugar onde outras brilharam antes. São as chamadas estrelas de segunda – ou terceira – geração.

Elas ficam em regiões do espaço ricas em elementos químicos pesados, como silício ou ferro, por isso excelentes candidatas a terem planetas rochosos a sua volta. Mas também há muitos planetas enormes feitos de gases leves, sobretudo hidrogênio, que é também o principal constituinte de uma estrela.








Então, de repente, os sofisticados instrumentos de bordo de sua nave lhe interrompem informando o rastreamento de um novo sistema planetário. Trata-se de uma estrela amarela, provavelmente de segunda geração, com alguns planetas ao redor. Sua missão é bastante clara, você deve investigá-los, saber como são seus ambientes e, especialmente, verificar se há vida e inteligência neles.

Lembre-se de que você foi instruído a fazer tudo isso de acordo com a “Norma Galáctica”: olhe, mas não toque. Você pode sobrevoar estes mundos, ficar em órbita em torno deles, usar instrumentos para investigá-los, mas está rigorosamente proibido de pousar.

Será que com tais restrições você ainda será capaz de descobrir vida?

Planeta Netuno
  Netuno com seus anéis. Arte de Walter Myers.


O primeiro mundo a atrair sua atenção é uma esfera de gás com anéis quase transparentes. Naturalmente você conhece a relação entre os átomos e a radiação. Sabe que os elétrons emitem energia quando retornam de uma órbita mais externa do átomo e que os comprimentos de onda emitidos estão estreitamente vinculados a essas transições, de modo que apenas analisando a luz emitida por uma substância você pode identificá-la.

Assim, você reconhece certa fração de carbono, silício e nitrogênio neste planeta. Você supõe que o motivo desse enriquecimento de elementos pesados esteja relacionado com um lento processo de formação. Talvez uma perturbação causada pela “concorrência” de planetas bem maiores nas proximidades. Você descobre que metano, hidrogênio e amônia são responsáveis por seu aspecto azulado.

Você está a mais de quatro bilhões de quilômetros da estrela central deste sistema quando encontra outro planeta, muito semelhante ao anterior em tamanho e constituição, porém com anéis opacos, muito finos.

Luas de Urano
  Urano com algumas de suas luas. Montagem da NASA/JPL.


Você examina alguns dos seus satélites. São pequenos mundos rochosos, sem atmosferas predominantes, mantendo evidentes as marcas de uma época onde impactos violentos moldaram suas superfícies. Os maiores possuem uma velocidade de rotação igual à sua revolução e por isso mantêm sempre a mesma face voltada para o planeta. A superfície de um deles é composta por camadas sobrepostas, um indício de atividade tectônica.

Um belíssimo planeta gigante, com um soberbo conjunto de anéis, lhe surpreende. Constituído sobretudo por hidrogênio, ele é bastante diferente dos anteriores, embora também gasoso. Com exceção do hélio, a atmosfera deste planeta apresenta-se muito semelhante à de uma estrela.

Planeta Saturno
  Saturno eclipsa o Sol, como visto da nave Cassini. Foto: NASA/JPL.


Você descobre que este planeta é tão pouco denso que se fosse possível colocá-lo em água ele flutuaria! Seu complexo sistema de anéis é formado por milhares de fragmentos de gelo e rocha muito brilhantes, com tamanhos que variam de um grão de poeira até maiores que sua própria nave. Há também um bom número de satélites (alguns com forma não esférica), um deles tem uma densa atmosfera, rica em compostos de carbono.

Você conclui que estava realmente certo sobre planetas gigantes nas proximidades quando se depara com um esplêndido globo multicolorido de gás. Você já conhece o tipo. É um daqueles que quase viraram estrela; muito rico em hidrogênio, se tivesse uma massa maior poderia apresentar condições de pressão e temperatura suficientes para fazer este sistema brilhar sob a luz de duas estrelas, em vez de apenas uma!

Planeta Júpiter
  Planeta Júpiter. Imagem: Wikipedia Commons.


Como os anteriores, este planeta também possui vários satélites rochosos, todos com características muito peculiares. Não há, no entanto, indícios de vida inteligente em nenhum desses mundos e você segue sua viagem.

A presença de uma miríade de pequenos corpos rochosos de forma irregular, espalhados numa vasta região do espaço não lhe causa surpresa. Afinal seria mesmo de se esperar que as tremendas forças gravitacionais daquele gigante gasoso impedissem que núcleos planetários chegassem a se condensar por aqui.

Ao longe você observa dois pequenos mundos. O mais próximo é vermelho e o outro é azulado – brilhante – e possui uma lua bem grande. Os instrumentos de sua nave captam fracas emissões em diversas frequências oriundas do mundo azul. Não parecem ter origem em nenhum processo natural conhecido. Você decide se aproximar para investigar melhor.

Da sua nave você observa a aproximação desse novo mundo. Sua primeira impressão são nuvens brancas, áreas marrons e uma substância azulada que recobre dois terços da superfície. Quando você mede a temperatura do planeta a partir da radiação infravermelha que ele emite, percebe que a maior parte da superfície está acima do ponto de congelamento da água.








Você sabe que a água é uma substância muito abundante no universo. A existência de depósitos polares de água sólida e nuvens de vapor é uma hipótese razoável. Mas não é possível concluir que a substância azul seja água. Então, você descobre vapor d’água suficiente para explicar as nuvens e na quantidade exata que a evaporação provocaria se aquela substância azulada fosse, de fato, enormes quantidades de água líquida. Você descobriu oceanos!

Numa outra parte da nave, você decide iniciar uma investigação mais apurada. Seus instrumentos de bordo revelam que a atmosfera desse mundo tem um quinto de oxigênio e mais nitrogênio, ozônio, gás carbônico, metano e outros elementos em menores quantidades.

Alguns desses gases mantêm este mundo aquecido durante a noite; sem isso todo o planeta estaria abaixo do ponto de congelamento da água. Outros, como o ozônio, protegem a superfície contra a intensa radiação que vem da estrela central. Mesmo assim, em nenhum outro planeta deste sistema você encontrou tanto oxigênio. A radiação ultravioleta oriunda da estrela decompõe a água em oxigênio e hidrogênio, sendo que apenas este último escapa à gravidade do planeta, por ser muito leve. Você sabe que este processo é uma fonte de oxigênio, embora não explique sua quantidade.

Conversão do metano
  Em um ambiente com excesso de oxigênio, todo metano é convertido em água e gás carbônico.


É muito difícil encontrar metano e oxigênio juntos numa mesma atmosfera. Você conhece bem as leis da Química: em um ambiente com excesso de oxigênio, o metano seria convertido em água e gás carbônico. O processo chega a ser tão eficiente que nem mesmo uma única molécula de metano sobraria na atmosfera. Mas os instrumentos de sua nave indicam que existe uma molécula de metano para cada milhão de moléculas! Tudo o leva a crer que essa substância vem sendo injetada na atmosfera com tanta rapidez que a reação química com o oxigênio não consegue converter todo o metano.

De onde virá tanto metano? Você pensa que ele pode estar se desprendendo do interior do planeta, mas ao fazer as contas, essa hipótese não parece funcionar. E, além disso, outros mundos semelhantes que você visitou não apresentaram um volume tão grande de metano. Suas alternativas são biológicas. Você ainda não sabe, mas as principais fontes de metano na Terra provêm das bactérias nos pântanos, dos arrozais, das queimadas, dos poços de petróleo e gás natural e da atividade intestinal dos ruminantes.

Quanto ao suposto excesso de oxigênio, uma possibilidade é a existência de formas de vida que usem a luz solar para decompor a água. Mas nesse caso esses seres fotossintéticos deveriam existir em grande quantidade e espalhados por todo o planeta, inclusive nos oceanos.

Examinando melhor as regiões continentais, você identifica áreas compostas por minerais comuns, do tipo encontrado em muitos outros mundos, e áreas escuras cobertas por um material que pode ser responsável por decompor a água. É mais um forte indício de vida; de toda uma superfície planetária repleta de vida. Você descobriu a vegetação. É a clorofila que absorve a luz solar nos comprimentos de onda correspondentes ao azul e ao vermelho e por isso as plantas são verdes.

Terra
  América do Norte. Foto: NASA.


Na verdade, todos os sinais de vida encontrados até agora são gerados por formas simples de vida, (o metano produzido no intestino dos ruminantes é devido a bactérias que ali se alojam). Mas há algum tempo os instrumentos de sua nave também detectaram um tipo especial de ondas de rádio que emanam deste planeta.

Você sabe que as ondas de rádio não significam necessariamente vida e inteligência. Em sua jornada, você já encontrou muitas emissões de rádio geradas por processos naturais, como descargas elétricas em planetas com atmosfera ou os campos magnéticos no espaço interplanetário. Agora, porém, é diferente, há uma frequência central constante em cada transmissão, ao que é acrescentado um sinal modulado (uma sequência de intervalos). Nenhum processo natural que você conhece pode gerar tal coisa.

Vida inteligente pode ser a única explicação plausível. Repare que em nenhum momento foi necessário decodificar as transmissões para que você se sentisse seguro de que se tratava de um sinal não natural. No entanto, você ainda não sabe quem é a espécie inteligente neste planeta. Serão os seres que fazem fotossíntese? Os que produzem metano? Ou será de alguma outra espécie não tão facilmente detectável do espaço? Você decide examinar o planeta empregando instrumentos de aumento. Talvez tenha a sorte de enxergar pelo menos as modificações que esses seres produziram no ambiente.

Primeiramente você enxerga certos aspectos da superfície. Enormes cursos de água cortam as regiões continentais. Não há dúvida de que a água desempenha um papel fundamental nesse mundo. Ela deve evaporar, se condensar naquelas nuvens brancas e se precipitar novamente sobre o solo. Novos terrenos devem ser assim criados e destruídos.

Deserto
  Rio Nilo e península do Sinai. Foto: NASA.


Você descobre extensas cadeias de montanhas e encontra áreas com intensa atividade geológica. Aqui, ao contrário da maioria dos mundos deste sistema, ainda há muitos vulcões ativos. Este é um planeta dinâmico.

Vulcão
  Vulcão em erupção. Foto: NASA.


Assim mesmo você ainda encontra marcas de impactos ancestrais. Naturalmente grandes meteoritos também atingiram este mundo no passado, e mesmo os rápidos processos de erosão ali existentes não foram suficientes para eliminar definitivamente todas as evidências dessas colisões, tão comuns nos planetas rochosos que você já visitou.

Crateras
  Crateras de impacto na Índia (à esquerda), Canadá (centro) e Mauritânia. Fotos da NASA.


Às vezes você enxerga lugares estranhos, manchas descoloridas rodeadas de vegetação, muitas delas próximas dos oceanos. Você decide examinar o planeta usando uma resolução de cem metros e então tudo muda!

As manchas revelam-se agora repletas de linhas retas, retângulos e círculos, muitas vezes amontoados uns sobre os outros. Seria difícil explicar sua regularidade sem apelar para vida inteligente, embora você não compreenda a finalidade de tais estruturas. Talvez eles simplesmente sejam apaixonados por geometria. Você acaba de encontrar as cidades humanas. Próximo a elas, você vê outros retângulos e círculos, agora preenchidos com vegetação, muitas vezes em meio a regiões secas. Você deduz que os seres inteligentes desse mundo cultivam o solo e dele precisam para extrair o seu alimento.

Cidades
  Cidade de Buenos Aires, Argentina. Foto: NASA.


Com uma resolução de um metro você descobre que as linhas que se cruzam dentro daquelas estruturas, conectando-as com outras a quilômetros de distância, estão cheias de seres multicoloridos, brilhantes, com alguns metros de comprimento, que se deslocam em filas lentas e ordenadas. Pacientes, nos cruzamentos das filas eles esperam até que outra corrente possa seguir adiante.

Finalmente você detectou a fonte de vida inteligente desse planeta! Todas aquelas estruturas geométricas evidentemente foram construídas para proveito daqueles seres. Você poderia pensar que começou a compreender a vida neste planeta. E talvez não esteja assim tão longe da verdade...

Aumentando ainda mais a resolução, você descobre minúsculos parasitas que costumam se alojar no interior dos organismos dominantes. De alguma forma eles são importantes, uma vez que, ao deixar um organismo dominante este fica imóvel, voltando a se locomover quando é novamente contaminado. Suas ideias sobre a vida neste mundo ficam novamente confusas.

Automóveis
  Automóveis no litoral da Turquia. Seriam eles os organismos dominantes da Terra? Royalty Free Stock Footage.


Porém, até agora, tudo o que você examinou estava sob a luz refletida da estrela desse sistema, isto é, do lado do planeta que é dia. Algo surpreendente lhe é revelado quando você se desloca para o lado escuro: o planeta tem luz própria! As tais estruturas geométricas, habitadas pelos seres dominantes e seus parasitas ficam iluminadas à noite. Mas os organismos dominantes tampouco se intimidariam com a escuridão, pois são capazes de iluminar seus próprios caminhos. É possível até mesmo reconhecer os contornos dos continentes à noite, tantas são as estruturas habitadas que ficam próximas do litoral. Talvez seja essencial estar perto dos oceanos.

Vista noturna
  Rio Nilo e Golfo de Suez à noite. Foto: NASA.


Algumas luzes, no entanto, não vêm das estruturas habitadas pelos seres dominantes. A região mais brilhante do planeta, perto do polo norte, é iluminada pela aurora boreal, que não é produzida por vida, mas por partículas atômicas emitidas pela estrela deste sistema e aprisionadas pelo campo magnético do planeta.

Auroras
  Auroras fotografadas a bordo do ônibus espacial. Foto: NASA.


Sua missão a este sistema planetário tem sido um sucesso. Você já caracterizou os principais planetas e está satisfeito por ter descoberto vida. Algumas questões sobre a vida inteligente, no entanto, ainda lhe intrigam. Você percebe que os supostos seres dominantes injetam uma quantidade razoável de dióxido de carbono na atmosfera. Fica claro para você que o clima do planeta vai mudar.

Você olha para a cobertura vegetal do planeta e descobre que em vários pontos, principalmente nas regiões equatoriais, centenas de áreas estão sendo queimadas. Aquelas estruturas geométricas sempre avançam contra a vegetação, destruindo-a continuamente e descaracterizando o ambiente natural.

Você percebe cursos de água tingidos de marrom, gerando uma imensa mancha quando chegam aos oceanos. É a camada superior do solo sendo arrancada num ritmo tão intenso que no futuro nada mais restará. Mas sem ela esses seres não poderão cultivar o solo, plantar e colher.

Você também descobre que os seres dominantes são os responsáveis pela emissão de diversos tipos de substâncias hostis ao ambiente, como um composto molecular, o clorofluorcarbono, com um efeito devastador sobre a camada de ozônio da alta atmosfera.

Destruição
  Queimadas, poluição do ar e assoreamento de rios na China. Foto: NASA.


De seu ponto de vista no espaço, você percebe que quem quer que sejam os seres dominantes, certamente algo vai muito mal neste mundo. Eles parecem ter tido tanto trabalho para reestruturar a superfície, mas destroem a cobertura vegetal, erodindo a camada superior do solo, modificando o clima do planeta e a proteção natural do ozônio na atmosfera. Serão incapazes de perceber a consequência de seus atos?

Você lamenta profundamente. É um lugar tão singular e assim mesmo a mercê de seres dominantes tão negligentes com seu próprio destino. Mas você não tem o direito de interferir. Talvez um dia – você espera que não seja tarde demais – eles compreendam que são parte deste mundo. É uma lição das mais simples, mas eles terão que aprendê-la por si mesmos.


Reavaliar hipótese de vida inteligente

Você se afasta do planeta para continuar sua jornada. Infelizmente, deve reavaliar sua hipótese de vida inteligente neste mundo.


» Sobre o autor:
Carl Edward Sagan nasceu em Nova Iorque no dia 9 de novembro de 1934 e morreu em Seattle em 20 de dezembro de 1996, vítima de mielodisplasia. Foi o principal responsável pelas missões Mariner, Viking e Voyager, e também trabalhou nos projetos Pioneer e Apolo. Autor da série para TV e do livro Cosmos, ganhador do prêmio Pulitzer de literatura, Sagan foi um dos maiores divulgadores de ciência de todos os tempos.

» Publicação em mídia impressa:
• Sagan, C. Pálido Ponto Azul, Companhia das Letras, São Paulo, cap.5, p. 87–109, 1996.