Considerações finais

Conhecer bem a bandeira do Brasil e o seu simbolismo é um mergulho na história. O círculo central em azul, que representa a esfera celeste, é herança do culto português pela esfera manuelina, simbolizando as grandes viagens de exploração marítimas.

Neste globo celeste, porém, uma faixa branca sintetiza um mote positivista de Auguste Comte: “o amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”, famoso à época e através do qual muitos republicanos se reviam.

A faixa branca já foi interpretada como simbolizando o rio Amazonas. Contudo, tal como na faixa equivalente da esfera manuelina, ela aparece representando o zodíaco, a região do céu percorrida pelo Sol em seu movimento anual aparente.

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O relacionamento entre o verde e as matas, o amarelo e as riquezas e o azul ao céu nunca existiu historicamente. O amarelo, por exemplo, recorda o período imperial e é, poeticamente, a representação do Sol. Tanto o azul quanto o verde ou o branco remontam a nacionalidade lusitana.

O retângulo e o losango estão presentes com as mesmas cores na bandeira imperial, mostrando que a bandeira republicana não rompeu definitivamente com o Império. O losango representa a mulher, na posição de mãe, esposa, irmã e filha. A esfera é o antigo símbolo do mundo, unindo o Brasil a Portugal através de D. Manuel, em cujo reinado se deu o descobrimento.

Vale destacar a ausência do vermelho e do preto, excluindo da bandeira lembranças as guerras, ameaças e agressões. A bandeira do Brasil é um pendão idealista e limpo, estando próxima aos antigos estandartes, erguidos para coreografar o bem-estar e o jubilo aos deuses.


A ESFERA CELESTE é um modelo do céu. Trata-se de um globo oco, em cuja superfície desenha-se as estrelas, constelações e a linha zodiacal, fixando-se a Terra em seu centro.

Grandezas
POVOS ANTIGOS PENSAVAM que todas as estrelas estavam fixas numa mesma esfera cristalina e à mesma distância da Terra. Dessa forma, seguindo a tradição dos globos celestes, a esfera é representada como que vista do lado externo, isto é, do infinito.

Somos levados “para trás” das estrelas. E não há outra maneira de representar os astros numa esfera que respeite as suas posições relativas.

As estrelas da bandeira do Brasil aparecem com cinco pontas, como é costume heráldico, e com cinco dimensões diferentes, procurando representar o brilho aparente das estrelas (magnitude), embora sem correspondência direta com as magnitudes astronômicas. Foram consideradas cinco escalas de magnitude: 0,30, 0,25, 0,20, 0,14 e 0,10 vezes 1/14 da largura da bandeira, que foi concebida na proporção 14 x 20.

Elas são classificadas em ordem crescente de luminosidade: as mais brilhantes são chamadas de primeira grandeza (aquelas que primeiro se veem após o pôr do Sol), seguidas pelas estrelas de segunda grandeza e assim sucessivamente, até a sexta grandeza, no limiar da visibilidade. A bandeira do Brasil mostra estrelas de cinco diferentes grandezas, visíveis a olho nu de qualquer local do país (embora em diferentes épocas do ano).

Grandezas estelares da bandeira
CINCO GRANDEZAS ESTELARES estão presentes na bandeira (números entre parêntesis). Podemos verificá-las observando apenas a constelação do Cruzeiro do Sul mais a estrela Sigma do Oitante.

As estrelas e seus significados
A ESTRELA ALFA DA CONSTELAÇÃO DE VIRGEM, chamada Spica, aquela que aparece solitária sobre a faixa “Ordem e Progresso”, não representa o Distrito Federal na bandeira do Brasil. Spica, que no céu real se encontra mais ao norte, representa o Estado do Pará. O Distrito Federal é representado por sigma do Oitante, uma estrela que na prática está no limiar da visibilidade a olho nu.

Contudo, a escolha se justifica plenamente ao verificarmos sua posição bem próxima ao polo celeste Sul. Desse modo, ela nunca nasce ou se põe vista do território brasileiro (está sempre no céu, em qualquer dia e horário) e, além disso, todas as demais estrelas descrevem arcos em torno de Sigma Octantis.

Na bandeira, três constelações são facilmente reconhecíveis: o Cruzeiro do Sul, o Triângulo Austral e o Escorpião. Algumas estrelas têm uma história ilustre e a sua presença está carregada de simbolismo.

Spica, por exemplo, é a única estrela que aparece ao norte da faixa branca e sua presença indica que o país tem parte de seu território no hemisfério norte (ao norte do equador).

Deusa Deméter

Busto da deusa Deméter (Ceres) no Casino di Villa Boncompagni Ludovisi. Fonte: Wikipédia.

Essa estrela aparece deslocada para norte da faixa, na bandeira, mas na realidade está ao sul da linha central do zodíaco (a eclíptica). Tal fato distorce conscientemente a sua posição celeste, revelando a extensão territorial do Brasil. Nenhum outro país com dimensão geográfica semelhante ocupa parte dos dois hemisférios.

Para os republicanos, a agricultura era uma ferramenta essencial de desenvolvimento e Spica faz referência à deusa Deméter (ou Ceres, para os romanos), deusa da agricultura, geralmente representada com uma espiga de cereal, exatamente a estrela Spica (espiga).

Mas os criadores da bandeira insistiram, sobretudo, no significado desta estrela na história da ciência. De fato, a observação de Spica está ligada à descoberta da precessão dos equinócios por Hiparco (190-120 AEC), um dos acontecimentos mais significativos da Astronomia antiga.

Um pouco mais abaixo aparece a estrela Canopus, da antiga constelação de Argus (atualmente Carina). Ela recorda a lenda dos argonautas, que empreenderam a viagem a Cólquida para se apoderarem do “velo de ouro”, a pele dourada do carneiro possuidor da Razão.

Segundo os criadores da bandeira, Canopus representa as viagens dos navegadores portugueses, que chegaram à América do Sul à procura de um moderno velo dourado.

No centro da bandeira está representada, em destaque, a constelação do Cruzeiro do Sul, que em 15 de novembro às 12 horas siderais passa pelo meridiano da cidade do Rio de Janeiro, capital do Brasil na época.

Uma das primeiras referências sobre o Cruzeiro do Sul é também um dos primeiros documentos escritos em solo brasileiro, redigido por um fidalgo de origem espanhola chamado João Emeneslau, ou simplesmente Mestre João. Considerado um “físico e cirurgião”, ele foi o principal investigador da expedição de Pedro Álvares Cabral.

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O céu da bandeira

» Referências (fontes consultadas):
• Coimbra, R. O. A Bandeira do Brasil. Rio de Janeiro: Fundação IBGE, 1972. 502 p.

» Publicação em mídia impressa:
• Costa, J. R. V. O firmamento como símbolo nacional. Tribuna de Santos, Santos, 25 nov. 2002. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-4.

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