As novas críticas

No final do século XIX, em meio aos saudosistas da monarquia, os recém-empossados republicanos e os que julgavam o positivismo uma seita, surgiu uma onda de críticas à nova bandeira, que naquela época era a notícia do dia. Passados mais de cem anos, continuam surgindo brasileiros insatisfeitos com seu estandarte máximo. Mas hoje as críticas são outras – muito mais modestas e simples de refutar.

Destacamos as três mais frequentes, seguidas por um texto explicativo.

O céu invertido
AS ESTRELAS NO CÍRCULO AZUL da bandeira do Brasil não representam a imagem de um céu real. Não apenas porque não estão dispostas na projeção adequada mas, principalmente, porque formam uma imagem refletida do céu da cidade do Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1889, às 12 horas siderais. Há quem defenda um novo desenho das estrelas, forçando uma identificação direta com o céu real. Mas a inversão tem um motivo importante.

Esfera armilar

ESFERA armilar.

No passado, era comum representar o firmamento num dispositivo belo, encontrado hoje apenas em museus, chamado esfera armilar. Uma esfera armilar é a representação dos os principais círculos e meridianos celestes contidos numa esfera celeste, montados numa armação de madeira e metal, e contendo a Terra posicionada no centro.

A bandeira do Brasil possui uma representação deste magnífico artefato, onde o observador é lavado a imaginar o nosso planeta no “interior” do círculo azul celeste. Assim, seu ponto de vista é “externo” e ele vê o firmamento invertido. O círculo azul da bandeira do Brasil representa uma esfera celeste.

A estrela que representa o Distrito Federal
PARA O LEIGO, Brasília, o Distrito Federal, está representado na bandeira do Brasil por Spica, a estrela solitária acima da faixa branca. Mas Spica representa o Estado do Pará. Decepção para os que desconhecem o significado de Sigma do Oitante, a estrela que de fato representa o Município Neutro da União.

Os descontentes argumentam que isto está errado. Sigma do Oitante é uma estrela muito pálida, quase invisível a olho nu, o que não condiz com o status de uma Capital Federal. Eles querem o destaque de Spica… E o Pará que fique com Sigma. Essa crítica já virou até Projeto de Lei (PL-2770/2000) de autoria do deputado (brasiliense, é óbvio) Jorge Pinheiro, lucidamente arquivado pelo Senado Federal.

Localização das estrelas Spica e Sigma do Oitante na bandeira do Brasil

Spica representa o Pará porque este era o Estado cuja capital era a mais setentrional do país (Amapá e Roraima tornaram-se Estados somente em 1988). Sua posição na bandeira revela a extensão territorial do Brasil: nenhum outro país do mundo, com dimensão geográfica semelhante, ocupa parte dos dois hemisférios da Terra.

Por outro lado, a estrela Sigma do Oitante já confere a Brasília o destaque adequado. Ela está numa posição singular do firmamento, em torno da qual todas as estrelas visíveis nos céus do Brasil descrevem arcos (veja esta gravura). Sigma está permanentemente acima do horizonte vista de quase todo o país, sem nunca nascer ou se pôr (com exceção das terras acima da linha do equador, representadas por Spica).

A representação de Brasília pela estrela Sigma do Oitante é um dos aspectos simbólicos mais marcantes da bandeira do Brasil. A proposta de inversão só destruiria este significado, único entre todos os pavilhões nacionais do planeta.

A faixa branca no sentido descendente
ENTRE TODAS, ESSA É A CRÍTICA MAIS TOLA. Ainda assim frequente. A ideia é que a faixa branca contendo a inscrição “Ordem e Progresso” desenhada no sentido descendente induz ao regresso da nação – ao invés do progresso – e portanto não condiz com a inscrição que a contem.

Bandeira do Principado do Brasil

A BANDEIRA DO PRINCIPADO, em vigor de 1645 a 1816, foi a primeira criada especialmente para o Brasil. Clique p/ ampliar.

É o mesmo que sugerir ao administrador de uma firma em dificuldades financeiras, que fica no 13° pavimento de um edifício, a trocar o número do andar para, digamos, 12b, por acreditar que a causa da crise é o 13.

A faixa branca no sentido descendente é uma tradição que já constava da bandeira do Principado do Brasil, instituída por D. João IV (figura à direita) e foi concebida para dar uma perspectiva esférica ao círculo azul. Além disso, segundo consta na Apreciação Filosófica do próprio Teixeira Mendes, está associada à Faixa Zodiacal (veja esta gravura), cuja representação original é descendente.

Afinal, a bandeira é perfeita? Não pode ser alterada nunca?
A BANDEIRA DO BRASIL NÃO É PERFEITA, nem do ponto de vista simbólico nem astronômico. Mas tampouco é uma carta celeste ou uma aula de heráldica. É sim, o pavilhão de uma nação – e um dos mais belos e sugestivos do mundo.

Além disso, a bandeira do Brasil pode e é alterada periodicamente.

As alterações são feitas nos termos da Lei que a rege (Lei 5.700, de 1º de setembro de 1971): cada vez que um Estado da Federação é criado acrescenta-se uma estrela à bandeira. Se for extinto, uma estrela é retirada. Ao ocorrer uma fusão, apenas uma permanece para representar o novo Estado.

Novas estrelas podem ser acrescentadas ou retiradas, mas sempre obedecendo a configuração original. São mudanças desnecessárias aquelas que alteram a configuração original da bandeira, desprezando sua tradição, razão e significado deste símbolo pátrio singular.

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O céu da bandeira
Consideracoes finais

» Referências (fontes consultadas):
• Coimbra, R. O. A Bandeira do Brasil. Rio de Janeiro: Fundação IBGE, 1972. 502 p.

» Publicação em mídia impressa:
• Costa, J. R. V. O firmamento como símbolo nacional. Tribuna de Santos, Santos, 25 nov. 2002. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-4.

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