Análise crítica

Em meio aos saudosistas da Monarquia e os recém-empossados republicanos também havia os católicos, que julgavam o positivismo uma seita. Não foi difícil surgir uma onda de críticas à nova bandeira. Uma polêmica que durou anos e dividiu os brasileiros em torno de seu símbolo nacional. Vejamos os principais pontos de discórdia na época.

Brasão de Armas do Brasil

SÍMBOLOS Enquanto a vexilologia é o estudo das bandeiras, estandartes e insígnias, a Heráldica é a arte de elaborar o brasão de armas de uma nação, cidade, soberano, família, indivíduo ou de uma corporação.

Falhas heráldicas
A HERÁLDICA É UM SISTEMA de combinações de figuras e cores usado nos brasões, emblemas e insígnias desde a Idade Média. A bandeira foi muito criticada por fugir a esses padrões, comuns nos símbolos nacionais europeus. No Brasil, porém, as regras heráldicas não gozaram do mesmo prestígio que tiveram na Europa, uma vez que aqui não existiu Idade Média.

Desprezo da tradição
SEGUNDO OS CRÍTICOS, a nova bandeira republicana desprezava a tradição histórica ao esquecer o período monárquico, conservado até hoje nos símbolos pátrios de outras nações. O que é verdade apenas em parte, pois o verde e amarelo eram as cores do Império, além das figuras geométricas, o losango e o retângulo, cuja associação com minas de ouro e a floresta tropical só existiu de fato na bandeira imperial.

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Erros astronômicos
O MODELO USADO para desenhar as estrelas na bandeira foi uma esfera celeste. Trata-se de um globo oco, em cuja superfície desenha-se as constelações, a linha zodiacal, os paralelos e meridianos celestes, fixando-se a Terra no seu centro.

A perspectiva geocêntrica se justifica: é assim que vemos o céu! Não percebemos que a Terra se move usando apenas os nossos sentidos. Pelo contrário, eles nos sugerem que Lua, Sol e demais estrelas se movem em volta da Terra; como se todos os astros estivessem sobre uma mesma superfície, a abóbada celeste, girando sobre uma Terra imóvel.

Na verdade as estrelas estão a diferentes distâncias e não sobre uma superfície no infinito. A simplificação usada nas esferas celestes vale-se dos nossos sentidos, que não percebem essa profundidade.

Por outro lado, se fôssemos mais rigorosos, representar um modelo do céu seria muito complicado. O uso da esfera celeste ainda é útil na chamada Astronomia de Posição, que estuda justamente o modo como percebemos o movimento dos corpos celestes.

Esfera Armilar
SÍMBOLO CELESTIAL  A esfera armilar dourada, símbolo do Império Português, representa os círculos da esfera celeste.

Esfera inclinada

Na bandeira, o círculo central representa o desenho dessa esfera, como se estivesse nas mãos de um artista, que a inclinou segundo a latitude da cidade do Rio de Janeiro (figura à direita) no dia 15 de novembro de 1889, às 12 horas siderais, instante em que a constelação do Cruzeiro do Sul tem seu eixo maior na vertical.

Na época, o Rio de Janeiro era a capital do Brasil. A data assinala o momento histórico que hoje é conhecido como “Proclamação da República” (na verdade um golpe, já que a monarquia era constitucional); e 12 horas siderais correspondem às 8h14 da manhã (a hora sideral é obtida a partir de uma equação que relaciona a posição do equinócio vernal com o meridiano local, numa certa data).

Portanto, é um céu diurno. O Sol já está acima do horizonte e não é possível observar nenhuma outra estrela. Ainda que fosse, suas posições estariam invertidas, uma vez que observar o modelo de uma esfera celeste – ela que possui a Terra representada no centro – é como ver o firmamento “pelo lado de fora”.

Assim mesmo as estrelas não ocupam sua posição verdadeira na estampa. Não é possível, por exemplo, verificar todas as estrelas correspondentes à constelação do Escorpião, de tão erradas as suas posições.

Um caso à parte é a faixa com o lema “Ordem e Progresso”. Para a Astronomia não poderia ser o equador celeste e nem a eclíptica. A estrela Spica (alfa de Virgem) figura solitária, acima da faixa, mas na realidade pertence ao hemisfério celeste Sul, enquanto Prócion, abaixo dela, pertence ao Norte.

Se a faixa representasse a Eclíptica novamente teríamos Spica abaixo dela e a estrela Graffias (beta do Escorpião) acima. Seria mais fácil imaginá-la como sendo a Faixa Zodiacal, e é exatamente esta a interpretação de Teixeira Mendes em sua Apreciação filosófica (“[…] por se tratar de uma constelação que tem parte acima e parte abaixo do plano da órbita terrestre…”).

Porém, para configurar o Zodíaco do ponto de vista astronômico, as estrelas Spica, Antares (alfa do Escorpião) e Gráffias deveriam situar-se no interior da Faixa Zodiacal.

Afinal, a bandeira está errada?
NA REALIDADE, ERRADO ESTÁ O MODO como a bandeira vem sendo explicada nas escolas – quando isso acontece. A bandeira do Brasil traz uma representação estilizada do firmamento, está mais próxima de um poema que de uma carta celeste. A respeito dos erros astronômicos, o próprio Teixeira Mendes argumentou:

“Não se tratava de construir propriamente uma carta do céu. Era preciso figurar um céu idealizado, isto é, compor uma imagem que em nossa mente evocasse o aspecto do céu, bem como os sentimentos que a evolução poética tem ligado a semelhante imagem”.

De fato, um aspecto geral do céu é facilmente percebido. O Cruzeiro do Sul se destaca, como queriam os idealizadores da bandeira, e a maioria não percebe que está invertido em relação à sua imagem verdadeira no céu, assim como as demais constelações.

Mas e quanto aos conhecedores da Astronomia? Para eles fica ainda mais fácil perceber a representação da esfera celeste. Não há falhas graves a serem corrigidas na bandeira do Brasil.

O céu foi desenhado aproximadamente à hora da proclamação da república, “para fixar-se perenemente o instante do nascimento da república”. E também por causa do nome original “Terra de Santa Cruz” e ainda a lembrança da “Cruz de Aviz” e da “Cruz de Cristo” que foram usadas nos galeões de Cabral.

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Projetos de reforma
As novas críticas

» Referências (fontes consultadas):
• Coimbra, R. O. A Bandeira do Brasil. Rio de Janeiro: Fundação IBGE, 1972. 502 p.

» Publicação em mídia impressa:
• Costa, J. R. V. O firmamento como símbolo nacional. Tribuna de Santos, Santos, 25 nov. 2002. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-4.

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