A Terra é uma bola

A Terra é uma bola

Você lê nos jornais que amanhã haverá uma importante partida de futebol entre as seleções nacionais de dois países. Um clássico como, digamos, Brasil e Argentina. Agora tente imaginar que você não sabe coisa alguma sobre esportes… Talvez se você pensar que veio de outro planeta.

Se conseguir ser imparcial o suficiente vai acreditar que aquelas nações se preparam para uma guerra. Os treinos secretos, os esquemas táticos, a mobilização popular, a troca de acusações, tudo vai indicar a iminência de um conflito muito sério. Não há nada de amistoso num bom jogo. Eles são confrontos simbólicos.

Brasil pentacampeão

POPULARES O futebol é o esporte mais popular No Brasil e em vários outros países, tendo a Copa do Mundo o dobro da audiência dos Jogos Olímpicos.

No Brasil, atletas se cobrem com a bandeira nacional ao subir no pódio ou cruzar uma linha de chegada. As pessoas se emocionam e vibram com eles. Jogadores de futebol ganham fortunas e são aclamados como heróis pelas torcidas.

Aqui se veste mais o verde e amarelo durante uma Copa do Mundo do que em qualquer comemoração pela Independência. Mas isso não é falso patriotismo, como pensam alguns. É um sentimento extremamente autêntico.

Afinal não lutamos pela Independência* (que no Brasil teve forte cunho político) do mesmo modo como nos sentimos representados numa competição esportiva.

Torcer significa, de algum modo, participar do jogo. É nossa gente, unida contra um “inimigo” em comum. Vencer é derrotá-lo. Existe aí um significado que vai muito além dos sistemas políticos, sociais ou econômicos em que vivemos. E também vem de muito mais longe, da pré-história da humanidade.

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Um por todos e todos por um
A ESPÉCIE HUMANA existe há cerca de dois milhões de anos**. Apenas nos últimos 3% desse tempo, que engloba toda a história conhecida, aprendemos a domesticar animais e a praticar agricultura. Em todo o restante éramos caçadores nômades.

Para caçar, o trabalho em equipe era fundamental. Era preciso estar bem integrado à natureza, ter força, alguma inventividade e muita ousadia. E fizemos isso muito bem. O sucesso do homem caçador e coletor se mostra claro ao percebermos que durou centenas de milhares de anos, nos cinco continentes.

A seleção natural fez de nossos ancestrais mais que ótimos caçadores, excelentes guerreiros. Uma predisposição espontânea à caça e ao trabalho em equipe incorporou-se aos genes das gerações que ainda estariam por vir. Ansiamos por extravasar tais tendências. Esportes em equipe nos proporcionam essa possibilidade. Infelizmente, não somente eles.

Muitas vezes o ritual da caça se volta contra nós mesmos. Isso não era um grande problema para os grupos nômades do passado, com suas sociedades igualitárias onde as mulheres exerciam uma importante função estabilizadora.

Mesmo hoje, se devidamente controlados, esses ímpetos podem se transformar nos gritos de exaltação e desespero comuns no desenrolar de um bom jogo. Dito assim ainda pode parecer um comportamento primitivo ou animalesco, mas se você aprecia esportes deve saber que é difícil de resistir.

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*A chamada Guerra da Independência ocorreu entre 1822 e 1823, dentro do processo da Independência do Brasil (de 1808 a 1825), quando a independência foi formalmente reconhecida por Portugal e Reino Unido. Ocorrem conflitos na Bahia, Maranhão, Piauí, Pará e Cisplatina (hoje Uruguai).

**O gênero Homo se afastou dos Australopitecos há cerca de 2,3 e 2,4 milhões de anos na África.


» Referências (fontes consultadas):
• Sagan, C. Da flecha à bola. Revista Superinteresante, São Paulo, ano 2, n. 8, p. 58-62, ago. 1988.

» Publicação em mídia impressa:
• Costa, J. R. V. Astronomia e futebol. Tribuna de Santos, Santos, 27 mai. 2002. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-4.

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