 |
A nobre missão da
FLORA I. MATTOS-COSTA*
Astronomia no ZêniteO Universo é tudo para nós |
Por que divulgar ciência? Talvez você já tenha ouvido esta pergunta em algum lugar. E por que voltar a esse assunto? Muitos motivos poderiam ser mencionados: a população apoia projetos que compreende melhor, o que invariavelmente resultará no suporte financeiro do poder público, das instituições fomentadores de pesquisa ou das empresas privadas.
Divulgar ciência ajuda a melhorar a educação. A divulgação atrai jovens ou entusiastas para o convívio no meio científico e ajuda a desmistificar conceitos equivocados e mitos sobre o papel do cientista. Divulgar ciência é o único meio de conter uma onda mística da qual surgem cada dia mais os que abusam da boa fé de nosso povo.
 |
"A elevação de barreiras cada vez mais altas para o entendimento dos assuntos científicos certamente diminue a ciência em si. Acima de tudo, é uma ameaça a uma de suas características essenciais: sua transparência para o exame e a avaliação externos."
Donald Hayes, "The growing inaccessibility of science" Revista Nature, 30/abr/1992 |
|
|
Mas então por que, especialmente no Brasil, não se costuma fazer divulgação científica? Será pura "inércia" de uma falta de tradição secular? Insensatez? um tiro no próprio pé – já que quase todo apoio à ciência vem dos cofres públicos? Provavelmente ocorre um pouco de medo e despreparo. Muitos acham que "saber" não implica em "saber transmitir".
Realmente é necessário explicar com clareza e honestidade o objetivo de uma pesquisa. E não se pode falar ao público em geral do mesmo modo como conversamos com nossos pares.
Não é um trabalho simples, mas todos envolvidos com ciência deveriam fazê-lo. Um trabalho bem apresentado ao público pode render reconhecimento e fundos para continuar as pesquisas. A população deve ter conhecimento da importância e necessidade dessa ou daquela pesquisa.
Ciclo virtuoso ESTE É UM CICLO QUE FACILITA a chegada de novos investimentos e o conseqüente desenvolvimento científico e tecnológico. Durante a crise no abastecimento de energia elétrica, por exemplo, os institutos que trabalham com fontes alternativas de energia tiveram uma ótima oportunidade de mostrar à imprensa e ao grande público os resultados parciais de suas pesquisas, e assim "batalhar abertamente" por mais incentivos.
Quando o cientista divulga o seu trabalho presta contas a sociedade daquilo em que ela investiu. Isso cria uma cumplicidade de que tudo o que é investido acaba retornando em benefícios. Isso também incentiva os professores do ensino médio a se manterem atualizados quanto aos avanços científicos.
Se a divulgação científica tornar-se um hábito, até mesmo os atuais critérios na concessão de financiamento para as pesquisas poderiam mudar, à exemplo do que já ocorre em outros países.
Um pesquisador tem de explorar um modo de divulgar o seu trabalho de maneira clara e precisa. É igualmente bem-vindo que ele compartilhe o seu conhecimento em ciência básica com jovens em idade escolar, assim como um atleta divide o seu tempo ensinando sua prática em iniciativas voluntárias.
Em seus estudos sobre a vida, Leonardo Da Vinci desenvolveu uma descrição detalhada da anatomia humana; porém, suas anotações eram obscuras e ele sabia que desenhos seriam melhor compreendidos – até por ele próprio. Assim, ele fez uma descrição minuciosa através de ilustrações que até hoje ainda são vistas em livros de anatomia.
Senso crítico OUTRO PAPEL IMPORTANTE DO DIVULGADOR é a correção de equívocos, os conceitos errôneos e a má divulgação científica. Em nosso meio há pessoas que se aproveitam do vazio deixado pela ciência na mídia e se autoproclamam especialistas, quando muitas vezes não têm sequer uma iniciação científica.
Pelo menos uma vez ou outra, o pesquisador deve assumir sua responsabilidade como educador e combater tais deslizes, falando habilmente sobre ciência e minimizando a propagação de erros.
O mais importante é formar uma sociedade crítica, com cabeças pensantes que tenham as ferramentas necessárias para atuar no beneficio de todos. Inspirar a juventude é um ótimo começo para galgarmos no caminho da maior entre todas as aventuras: aprender e praticar ciência.

*Flora Inês Mattos Costa é doutora em ciências pela Universidade de São Paulo (USP) com pós-doutorado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Colabora com o Zênite cuidando para que nossos artigos atendam as exigências básicas de um bom trabalho de divulgação científica: clareza, precisão e correção. |
Sobre esta página: Você está em zenite.nu?divulgacaocientifica Última atualização em 02/08/2008 às 21h21min.
|
|  |