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Mira, a maravilhosa

JOSÉ ROBERTO V. COSTA
Astronomia no Zênite
O Universo é tudo para nós

Você já conhece o tipo. Tem épocas que está em plena evidência. Brilha em todos os lugares. Não se fala em outra coisa. Outras vezes praticamente desaparece. Nem parece que existe. Ninguém ouve falar. Não é assim com muitas celebridades?

No resto do Universo não é diferente. Algumas estrelas têm comportamento parecido e brilham para valer somente em algumas ocasiões. Não estamos falando de astros que só são visíveis em certas épocas do ano. É como uma variação de humor mesmo. Uma estrela que muda de “temperamento”.

Variável
MIRA, UMA ESTRELA DA CONSTELAÇÃO DA BALEIA, é um caso notável. Seu nome significa maravilhosa em latim, e certamente essa é a impressão que causa devido a grande variação de seu brilho. Mira é uma estrela variável.

Famosa desde o século XVII, seu brilho aumenta e diminui num período de aproximadamente 330 dias – e isso é percebido a olho nu. Mira é provavelmente o exemplo mais extraordinário de estrela variável que se tem notícia, e um dos alvos preferidos do olhar curioso dos astrônomos amadores – essa gente que é fã dos astros e estrelas de verdade.


Acesse uma carta celeste de Baleia

Segredos da estrela
MIRA É MAIS QUE UMA ESTRELA. São duas! Mira A e Mira B giram em torno de um centro comum de gravidade, embora o segundo astro não seja fácil de perceber nem mesmo com telescópios. Visto da Terra elas parecem uma só, mas na verdade estão afastadas uma da outra por longos 9 bilhões de quilômetros – o mesmo que uma vez e meia a distância do Sol a Plutão.

Mira B é apenas uma minúscula anã branca, um tipo de estrela que tem praticamente o mesmo tamanho que o nosso mundo, é pouco luminosa, porém densa o bastante para que apenas um centímetro cúbico dela pese mais de uma tonelada.

UM RAIO X de Mira A e B tirado
pelo telescópio espacial Chandra. Imagem: NASA/CXC/SAO/M.

Mira A, ao contrário, é uma gigante. O Sol ao lado dela nem seria notado. Mira A tem um diâmetro da ordem de 556 milhões de quilômetros, enquanto o Sol tem 1,4 milhão. Mas isso não é humilhante para a nosso astro-rei, porque Mira A tem obesidade mórbida.

A estrela atingiu uma fase avançada de seu ciclo de vida e se transformou numa “gigante vermelha”. Seu tamanho aumentou 600 vezes em relação ao do Sol e a estrela está pulsando, como um doente terminal ligado a aparelhos de uma UTI. Aproxima-se o momento em que o combustível nuclear de Mira A vai acabar e ela vai entrar em colapso. Mira está morrendo.

Distúrbios magnéticos intensos podem acontecer em sua superfície, ocasionando explosões de raios X e fortes ventos estelares (emissões de partículas carregadas eletricamente), fazendo a estrela perder material rapidamente.

Isso de fato foi observado pelo observatório Chandra, da Nasa, um telescópio espacial que faz qualquer astrônomo se sentir como o super-homem, capaz de enxergar em raios X. Através do Chandra, eles perceberam que Mira B está capturando parte do gás e da poeira que escapa da gigante moribunda.

INSACIÁVEL, Mira B suga matéria de Mira A, que está para se colapsar e se transformar numa anã branca.

Companheira ingrata
INCAPAZ DE DETER O DESTINO DA GIGANTE, a pequena Mira B aproveita-se de sua companheira, recolhendo parte do material que ela expele em seus momentos de agonia, onde as colisões entre as partículas que se movem muito rapidamente produzem os raios X observados pelo Chandra.

As duas estrelas estão neste momento ligadas por uma ponte de gás quente. Esse sistema estelar fica a mais de 400 anos-luz do Sol (o ano-luz é uma medida de distância e vale cerca de 9½ trilhões de quilômetros).

Sorte nossa. Se Mira A estivesse no centro do Sistema Solar em vez do Sol, sua borda se estenderia até depois da órbita de Marte, engolfando a Terra.


Mira (Omicron de Baleia)
Cor
 
Classe
espectral
Distância
(anos-luz)
Luminosidade
(Sol=1)
Massa
(Sol=1)
Temperatura
superficial
Diâmetro
(Sol=1)
VermelhaM7IIIe 420variável1,22.200 K 1.000
Descubra como encontrar Mira no céu.

Monstros marinhos
HÁ MUITAS HISTÓRIAS DE MONSTROS MARINHOS nas culturas do passado, e não é surpresa que algumas das mais importantes constelações do céu se refiram a seres mitológicos, como o Dragão, a Serpente, a Hidra – e a Baleia.

Na Antiguidade, a constelação da Baleia era vista como um grande monstro marinho prestes a devorar a jovem Andrômeda, salva a tempo pelo herói Perseu. Baleia faz parte de uma das mais famosas “famílias celestes”, grupos de constelações ligadas por um mito.

Mas no sistema Mira os papéis se invertem. O “monstro marinho” não é o astro descomunal, mas a “indefesa” estrela anã, que suga da gigante seus últimos suspiros de brilho. E nenhum herói irá salvá-la.



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Publicação em periódico impresso:
• Costa, J. R. V. Mira, a maravilhosa. Tribuna de Santos, Santos, 7 mai 2007. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-2.

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• Última atualização em 02/08/2008 às 21h26min.
   

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