Sol, magnífico astro-rei

JOSÉ ROBERTO V. COSTA
Astronomia no Zênite
O Universo é tudo para nós

Reserve um tempo para você e olhe as estrelas. Que visão magnífica é um céu estrelado! Há quem se empolgue e fique a contemplar por horas e horas. Mas então amanhece e deixamos de ver estrelas, pelo menos até a noite seguinte, certo?

CELEBRIDADE Cauê, mascote do Pan 2007, é um nome de origem tupi que significa “homem bondoso”. A figura simboliza os muitos dias ensolarados do Brasil.

Absolutamente errado. Amanhece porque surge no céu a mais importante de todas as estrelas do Universo: a nossa estrela. Cada ser vivo que nasceu ou nascerá neste mundo deve sua existência a essa anã amarela, com seus respeitáveis 4,6 bilhões de anos de idade.

Se o Sol fosse uma celebridade (para a Astronomia ele é, sem dúvida) teria um currículo impecável, uma vida só de glórias no palco celeste. Seria uma honra poder entrevistá-lo, fazer-lhe perguntas sobre seu passado luminoso - e seus planos para o futuro.

Também seria uma imensa responsabilidade, é claro. Afinal, ele falaria para a Terra. Mas já seria fabuloso apenas imaginar o que ele teria a dizer. Poderíamos começar com o tradicional, perguntando quando sua carreira de estrela começou...

Entrevista do século
Quando eu brilhei pela primeira vez — diria o magnífico astro-rei com uma voz quente. — Eu me lembro que havia uma densa nebulosa. Vocês (os planetas) ainda não tinham nascido. Havia somente aquele disco de matéria girando a minha volta. Mas então eu brilhei com vigor e comecei a arrumar a casa.

Como foi isso? Perguntaríamos com a curiosidade de uma criança.
Eu nasci do colapso daquela nuvem de gás e poeira. Depois que me tornei uma estrela, a temperatura da nebulosa começou a cair. Os planetas vieram em seguida. O resfriamento provocou a rápida condensação do material, e isso fez surgir agregados de matéria que foram as sementes dos planetas.

Foi assim que a Terra nasceu?
Sim. Mas perto de mim os núcleos planetários não puderam crescer muito. Eles deram origem a Terra, que é o maior planeta rochoso a minha volta, e também Mercúrio, Vênus e Marte. Os planetas gasosos, de Júpiter a Netuno, surgiram porque a parte externa da nebulosa continha muito gelo e silicatos. Esses núcleos cresceram até atingir dez vezes mais massa que a Terra. Ficaram tão grandes que passaram a atrair o gás ao redor – e então cresceram mais ainda. Mas isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.


Sol
Cor
 
Classe
espectral
Distância
da Terra
Luminosidade
(× 1024 J/s)
Massa
(× 1024 kg)
Temperatura
superficial
Idade
(bilhões de anos)
AmarelaG2V 149,6 × 106km384,61.989.1006.600 K 4,57

Outras estrelas brilham mais, porém têm vida curta. Qual o segredo da sua longevidade?
É precisamente isso! O tempo de vida de uma estrela é a razão entre a energia que ela dispõe e a taxa com que ela gasta essa energia, ou seja, sua luminosidade. A luz que brilha muito se consome rápido. É que quanto mais massa tem uma estrela, mais rapidamente ela gasta sua energia, e menos tempo ela dura. Como não sou gigante, minhas reservas de hidrogênio ainda vão durar por mais 4 ou 5 bilhões de anos!

Para nós você é um gigante!
Obrigado! Realmente, dentro de mim caberiam mais de 1 milhão e quatrocentas Terras. E cada metro quadrado de minha superfície emite mais de 62 mil kW de energia, continuamente. São números gigantes, especialmente para vocês.

Números astronômicos! (risos) Mas como toda essa energia é produzida? Há quem pense numa enorme quantidade de fogo...
Não há fogo. Sou formado basicamente pelo gás hidrogênio, o elemento químico mais abundante no Universo. Uma concentração descomunal desse gás gera pressões e temperatura elevadíssimas. O bastante para produzir reações de fusão nuclear, a origem da energia de todas as estrelas.

Mas sua forma parece tão regular! Como pode ser somente gás?
A pressão do gás força minha expansão, como quando você assopra uma bexiga para enchê-la. Mas a força gravitacional, conseqüência da enorme matéria gasosa, age em sentido contrário. Minha forma estável se deve ao equilíbrio entre essas duas forças.

O Sol de corpo inteiro
O SOL DE CORPO INTEIRO Clique na imagem para ampliar.

Aqui na Terra dizem que você está mais quente. Outros falam que o fim do nosso mundo será quando você deixar de brilhar.
Não acredito nisso. E não estou mais quente. Vocês é que não estão dando o devido valor ao pedacinho de rocha onde vivem. Se a Terra estivesse um pouco mais perto de mim, a água seria sempre vapor. Mais longe e seria um eterno cubo de gelo. Vocês estão no lugar certo. Num maravilhoso - e único - pontinho azul que eu sempre vejo com ternura.

Tem razão... Diríamos ao fim da entrevista. Mas ele ainda insistiria:
Prestem muita atenção: um dia vocês se consideraram o centro do Universo. Mas nem eu sou o centro do Universo. Vivemos todos na periferia da galáxia, bem longe de qualquer lugar que possa ser chamado de “centro”.
Vocês não podem continuar agredindo a Terra dessa maneira — sentenciaria o astro-rei com toda sabedoria. — Eu vou continuar brilhando, os planetas vão continuar girando a minha volta. Incluindo a terceira rocha que vejo daqui. Mas se essa atitude negligente continuar, não haverá mais humanos nela. Seria uma pena. Vocês todos são pedacinhos de estrelas.


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Publicação em periódico impresso:
• Costa, J. R. V. Sol, magnífico astro-rei. Tribuna de Santos, Santos, 2 jul 2007. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-3.

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• Última atualização em 15/05/2011 às 15h43min.
   

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